Ela abriu a caixa de entrada do e-mail como fazia repetidamente todos os dias. Mas dessa vez havia uma mensagem completamente inesperada e de alguém que há muito tempo não via:
“Oi, tudo bem?
Há quanto tempo não nos falamos! Sinto muito a sua falta. Pra falar a verdade não sei muito bem qual foi a última vez que nos vimos. Logo antes da sua viagem? Ou aquele aniversário foi depois? Tenho muitas coisas pra te contar. Nem se quisesse você imaginaria as coisas que andei fazendo! Hahaha! Na verdade, eu também não cogitaria fazer parte do que fiz.
Umas pessoas que estavam muito próximas de mim até pouco tempo disseram que era como se eu ‘convidasse o Diabo para um lanche da tarde’. Achei a expressão meio estranha, mas até que de certa forma faz sentido. Não estava me preocupando com minha integridade mesmo!
Nessas últimas semanas fiquei pensando em como não ter você na minha vida mudou também o meu jeito de ser. Não consigo mais me acalmar ao ponto de sentar e ler um livro como era de costume. Lembra? Queria muito poder te ver novamente. Retomar a amizade. Se é que ‘retomar’ é a palavra certa. Talvez seja mais dar continuidade a tudo o que já vivemos. Não acredito que esse hiato tenha afetado o que temos. Pelo menos falo por mim. Continuo sendo fiel a você, é só me chamar que vou estar aonde você precisar.
Mas talvez agora eu é quem esteja precisando de alguém aqui. Das horas de conversa que têm mais eficiência que qualquer terapia. Queria tanto passar um dia inteiro com você, apenas conversando, comendo bobagens, assistindo filmes repetidos. Estar em uma ilha deserta seria ótimo! Protegida por um mar revolto seria um esconderijo perfeito para que nada mais nos perturbasse. Aiai! Como eu queria que isso realmente fosse uma alternativa.
Agora que crescemos podemos fazer o que sempre quisemos também! Achar uma estrada vazia e colocar mais de 100 km/h num carro ao som da nossa banda favorita (aliás, também continua sendo a sua?)!
Sei que quando nos vermos novamente tudo o que está errado agora vai encontrar seu lugar. Como sempre aconteceu quando eu estava na sua companhia. Parecia que no mundo não existia mais nada além de nós! Saudade dessa sensação. Saudade de você.
Espero que você ainda queira continuar essa nossa história como eu quero.
Espero que me responda. Vou esperar por uma resposta.”
Ela então esticou as mandas do moletom que vestia e enxugou as lágrimas que ainda escorriam. Com um enorme sorriso no rosto selecionou a opção “Responder” e começou a escrever como tudo aquilo ainda era verdade para ela.
Baseado em: 60 miles as hour, da banda New Order. Composta por B. Sumner, S. Morris, P. Cunningham, G. Gilbert e T. Chapman. Faixa 2 do disco Get Ready de 2001.
Ambos sabiam que as coisas ali não estavam muito bem. Depois dos últimos acontecimentos sustentar a situação e a relação ficou ainda mais difícil para um lado. Por mais que o outro soubesse das bobagens que havia feito, insistia para tentarem uma nova chance. Lá estava a oportunidade, mas nada mais era como antes.
“Você tem consciência do quanto me machucou. De como eu sofri com suas atitudes, do quanto chorei por ver que o amor da minha vida, por mais que me dissesse o mesmo, não se preocupava com meus sentimentos...”
“Me preocupo, sempre me preocupei! Se aquilo aconteceu foi porque eu não tinha ideia do que estava fazendo. Não tinha controle dos meus atos. Me desculpa, me perdoa... Nunca quis te fazer mal.”
“Foi exatamente isso que você me disse da última vez. Dei uma nova chance pra gente, mas você simplesmente pegou meu coração e quebrou em milhares de pedaços. Não dá. Achei que você fosse me trazer de volta a felicidade que um dia tive ao seu lado. Não foi bem isso que aconteceu. Não foi essa a sua escolha.”
Momento de silêncio. Não havia lágrimas naquela conversa. Apenas a emoção tomada pela razão de um lado e a procura de argumentos de outro.
“Não saia da minha vida. Volta pra mim... Volta pra mim...”
“Não consegue ver o que está causando na minha vida? Sim, já fui muito feliz ao seu lado um dia. Essa história já significou muito pra mim. Mas tudo foi destruído por você. Pegou meus sentimentos e me deixou só.”
O outro lado tentava com todas as forças ser convincente, provar que o que dizia era verdadeiro e sincero, porém não tinha mais de onde tirar motivos lógicos para que a relação não terminasse. O que restou foi continuar ouvindo e sofrendo. Por mais que tivesse feito muita coisa errada, aquela vida era muito importante.
“Eu te avisei antes. Não esperava que tudo acabasse assim. Você não me deixa escolha. Não posso mais me torturar. Você ainda é o amor da minha vida, mas o tempo vai passar...”
“E eu vou estar sempre lá por você. Não me deixe. Pode passar o tempo que for. Eu nunca vou deixar de te amar. Quando tivermos envelhecidos sentados em cadeiras de balanço, eu vou até você para te lembrar que ainda te amo. Vou continuar te amando até o dia que você voltar para mim. Até o fim.”
A ausência de palavras agora era do suposto lado “correto” daquela discussão.
“Será que não sabe o quanto você é importante pra mim? Sei que fiz muita merda, mas... por favor, volta pra mim. Você é o amor da minha vida.”
Aquelas palavras sim, tiraram a capacidade de falar de um dos lados. Porém não corrigiram os erros ou apagaram o passado mais recente. Sem mais o que falar, mas crente em tudo o que passava pela sua cabeça, tudo o que esse fez foi dar as costas e seguir seu caminho (agora) solitário.
Baseado em: Love of my life, da banda Queen. Composta por Freddie Mercury. Faixa 9 (ou 2 do Lado B) do disco A Night at the Opera de 1975.
A noite de sexta-feira estava apenas começando quando você me ligou. Há quanto tempo não saíamos juntas! Estava mesmo com saudade das nossas risadas e fofocas depois de um longo dia de trabalho. Você já estava no boteco de sempre próximo ao centro da cidade e apenas me intimou a te encontrar lá. Ou seja, senti que era o tipo de pedido irrecusável.
Assim que cheguei te encontrei sozinha já com uma garrafa de cerveja aberta. Você não parecia estar bem e meu sexto-sentido já dizia o que tinha acontecido, era a mesma velha história de novo. Sentei na cadeira à sua frente e logo senti a quantidade de urubus olhando para nós. Nenhum deles te interessava. Apenas seu passado te interessava. O mesmo cara, o mesmo lugar, a mesma situação estranha, a mesma sensação de abandono, o mesmo descaso.
Não havia novidade nem na sua fala nem na minha. “Você precisa se livrar disso. Parar de insistir numa coisa que nunca deu certo nem tem nada pra dar certo”, eu insisti em te dizer para largar essa história de uma vez por todas, mas isso não surtiu muito efeito. Você me disse que o revival só aconteceu porque você estava carente, perdida por aí. Não, não foi isso. Te conheço e pelo que estou sabendo opções não te faltam. E essa não foi a primeira vez. “Você não quer admitir, mas já deixou escapar muitas histórias mais interessantes que esse seu passado que não te deixa. Além de tudo, você sabe muito bem que ele não te faz bem. Nunca te fez”
Algumas garrafas de cerveja a mais e eu continuava a te dar motivos pra dar adeus a tudo o que envolvesse esse cara. “Nem você acredita mais nisso. Se convenceu de que não vale a pena, que só alimenta uma mágoa que não de traz nada de positivo. Eu me importo com você. Quero te ver bem de novo!” Você ensaiava um sorriso, mas era claro que não eram essas as palavras que você queria ouvir, mas as que precisava. “Desculpa se estou pegando pesado, é que estou realmente preocupada com você” Momento de silêncio. A essa altura a cerveja já havia sido esquecida. “Não se arrependa de nada que tenha feito. Terminar o que já não estava dando certo foi a melhor coisa que havia pra ser feita, por mais que a chance da recaída existisse. Mas agora já deu. Pensa pra frente, num possível futuro. Pára de ficar admirando uma história que não funcionou”
Sabia que você concordava comigo, por mais que não me dissesse uma palavra sequer. “Agora é hora de parar de andar por este caminho. Escolhe algum outro. Qualquer um que seja diferente deste” Dei uma olhada ao redor e o bando de urubus continuava a nos rondar. “Ei!”, eu chamei sua atenção de volta pra mim, “já reparou nas mesas ao nosso redor? Parte pro ataque. Chega de ficar se remoendo. Isso não faz bem pra ninguém e não tem nada a ver com você! E como você mesma diria, nada como um novo item no cardápio para excluir um que não agrada! Quem precisa de uma recauchutada no cardápio agora é você, amiga”.
Não, naquela noite não apareceu nenhuma nova opção no seu menu, mas espero que pelo menos um dos pratos principais tenha saído definitivamente. Até porque, caso isso não aconteça, você só vai se afundar cada vez mais. Esquece esta história!
Baseado em: Kiss your past goodbye, da banda Aerosmith. Composta por Steven Tyler e Mark Hudson. Faixa 10 do disco Nine Lives de 1997.
Meses sem escrever... Guardadas as devidas proporções, fiquei olhando para uma folha em branco sem saber o que fazer, assim como meu vizinho que agora olha para suas tintas, seus papéis e blocos intocados de argila. Logo ele que sempre é visto pintando, desenhando, modelando, criando. Mas, ao contrário de mim que andou correndo de um lado pro outro, curtiu a vida, descobriu muita coisa e simplesmente teve preguiça de sentar para escrever, o motivo da falta de inspiração dele parece mais ser pouca motivação e excesso de pensamento. Há tempos aquela moça de beleza incontestável, que costumava aparecer pela manhã na janela, não é mais vista por aqui.
Lembro bem que um dia acordei, olhei para fora do meu quarto e vi o casal numa felicidade contagiante. Como quis saber o que trazia tanto bom humor numa manhã de segunda-feira! Mas ok, não era assunto meu. Eles sim, felizes da vida se abraçavam, se beijavam, sorriam compulsivamente e olhavam para um papel de rascunho.
No dia seguinte o vizinho estava colando nas paredes do apartamento novos desenhos. Apesar da distância entre os prédios (delimitada por uma pequena casa) e com a ajuda da posição dos andares (o meu ficava um acima do dele), pude ver vários retratos que ele havia feito dela. Muito bons, como sempre. Mas dessa vez ela não posava para ele como se fosse uma modelo profissional, mas aparecia como se fosse “apenas” uma pessoa feliz que dividia o espaço com o artista.
Por mais que só pudesse vê-los por poucos minutos e apenas alguns dias, era comum presenciar cenas agradáveis através da janela deles. Eram um casal que transmitia boas energias, ainda que estivesse fazendo coisas banais e estáticas, como assistir TV. Eram o tipo de casal que você sente que vai durar para a vida toda e nunca vai envelhecer. Parecem tão bem assim! O tempo não deveria passar para esse tipo de pessoa. Qualquer um dos dois, quando via alguém das redondezas na rua, sempre desejava um bom dia. Entre as aposentadas que se encontravam na varanda da casa entre os dois prédios, o casal era o assunto preferido (na falta de alguma fofoca mais urgente, é claro). “Eles formam um casal tão bonito”, “Será que demora muito para o casamento?”, “Imaginem os filhos que vão ter! Vão ser as crianças mais bem educadas do bairro”, “Ele é tão apaixonado, não acham? Faz de um tudo para ela! Ela é o Sol que ilumina a vida dele”.
Ao que parece sim, ele era apenas um planeta girando em torno de sua estrela. Parece que a luz que ela irradiava alimentava as criações dele. Olhando pela janela e vendo os últimos desenhos que ele pendurou, fica a impressão de que a estrela se apagou. Como eu nunca havia visto antes, agora o preto domina suas obras. E ele continua sentado em um banquinho, enquanto tintas e papéis esperam para ser escolhidos.
A rotina do casal no sábado à tarde era bastante previsível. Ela fazia poses, ele dava palpites, ela se ajeitava melhor e ele fazia o esboço do desenho que continuaria no dia seguinte. Quando o dia pensava em acabar, eles saiam, iam até um parque próximo daqui e se divertiam com as crianças que brincavam. A última vez que o vi sentado no mesmo banco do parque ele estava sozinho e por mais que as crianças insistissem, ele não conseguia se entreter com aquilo.
Agora ele apóia os cotovelos nos joelhos e deixa a testa cair nas mãos. Atormentado faz que não com a cabeça até quase se desequilibrar do pequeno banco. O artista então olha para o balde cheio de água amarelada das tentativas frustradas de modelar alguma forma na argila. Ele olha para as pinturas pelas paredes. Observa que algumas antigas ainda estão lá. Foram selecionadas por ele mesmo para ocuparem espaços especiais daquele cômodo. Olhando com mais cuidado, agora elas estão sempre acompanhadas de alguma nova, feita apenas com a tinta preta. De repente ele se levanta derrubando o banco em que estava, pega o balde e espalha toda aquela água turva pelos desenhos da bela moça que decoram as paredes.
As cores quentes e vivas que coloriam os papéis ficam manchadas pelo preto que escorre dos trabalhos mais recentes. Ele saiu do cômodo, não consigo mais vê-lo.
O dia passa, a noite passa, um novo dia chega. Logo que saio de casa para trabalhar vejo as simpáticas senhorinhas conversando na varanda ao lado do prédio onde moro e escuto uma conversa estranha. “Vocês ficaram sabendo o que aconteceu com o casal? Por que a moça sumiu? Quando eu estava na garagem do prédio hoje mais cedo achei esse papel. Aqui fala que ela foi selecionada para fazer alguma coisa fora do país. Não consegui descobrir o quê, nem onde. Está tudo borrado com uma tinta preta”.
Baseado em: Black, da banda Pearl Jam. Composta por Eddie Vedder e Stone Gossard. Faixa 5 do disco Ten, de 1991.
A vida às vezes nos surpreende. Sabe quando absolutamente tudo que envolve a sua pessoa dá errado? Quando você programa por meses alguma coisa para fazer e quando finalmente chega o grande dia, não... não era aquilo o esperado? Você olha de novo seus planos, cada detalhe, cada passo que deve ser tomado e percebe que há algo de errado. Que as coisas não se encaixam. Que tudo o que as pessoas esperam de você não é o que você realmente espera de si e percebe que não é esse o caminho que escolheu. Mas todos continuam esperando seus resultados, suas projeções para o futuro que parece tão óbvio. Óbvio para eles, ninguém sabe o que realmente passa na sua cabeça. É quando essas coisas começam a acontecer que você sai de casa com destino a lugar algum, apenas para olhar o céu e a cidade.
Também tem aquela época em que a única coisa que te mantinha em pé não faz mais parte da sua vida. Que você sai mais cedo de casa para o trabalho tentando evitar o trânsito matinal, mas dá na mesma. Você então liga o rádio (claro que não pode escutar o que quer, a única coisa que funciona no aparelho é o FM) e escuta uma voz irritantemente feliz comentando que as principais ruas da cidade estão paradas, incluindo todas pelas quais você precisa passar. Talvez fosse bom ter um amigo por perto, no banco ao lado mais exatamente. Pelo menos ele faria companhia em troca de se livrar do ônibus cheio que também está parado na faixa à sua direita. Você abre a janela, coloca a cabeça para fora e olha o dia... Por que o céu tem que estar tão bonito e o clima tão agradável em plena segunda-feira?
Olha para os prédios ao redor. Uma placa de “Vende-se” te lembra que precisa arrumar um lugar novo para morar. O atual se tornou grande demais para uma pessoa só. Nessa cidade os apartamentos não te comportam mais, são sempre muito grandes e muito dispendiosos. Pode parecer que não, mas você não pretende deixar essa cidade, ela é parte da sua vida. Por mais que tenha passado por várias outras, você sempre procurou algo que te parecesse familiar. Você respira. Parece que o trânsito finalmente vai começar a andar.
Agora já é hora de fazer o caminho de volta, depois de encarar mais algum tempo de engarrafamento, finalmente vai estar em casa. Em meio aos carros você tem o impulso de largar o que conduz no meio do caminho e seguir a pé pelas ruas, apreciando as estrelas quase ofuscadas pelo brilho intenso da lua. A brisa da noite é um convite à parte que te faria ignorar o barulho dos carros. Você queria estar em um lugar específico, que te traz boas lembranças e poder acreditar que sua vida não está totalmente arruinada. Aprendizado do dia: Tudo é questão de tempo.
Como de costume você chega em casa na hora do jornal. Troca o canal passando por canyons entre nuvens, por cardumes de atum nadando no oceano, passarinhos carregando folhas no bico, imagens incríveis da China. O mundo parece muito mais tranquilo por meio da tela da televisão. De qualquer forma você chega à conclusão de que hoje foi um bom dia e promete não mais deixar dias como esses escaparem de suas mãos.
Baseado em: Beautiful Day, da banda U2. Composta por Bono Vox.Faixa 1 do disco All that you can’t leave behind, de 2000.
Ele não faz muita ideia de onde está, mas tem certeza que não é nada perto de onde deveria estar. O punho de aço continua esmurrando sua cabeça, sinal que a vodka da noite anterior deixava suas últimas marcas. Agora ele está sentado no banco de um piano mal tratado, tocando algumas teclas que produzem uma melodia que beira a depressão. Ele tenta se lembrar do que tinha acontecido nas últimas 12 horas.
Quando se dá conta, uma boca francesa deixa uma marca vermelha em seu rosto e a voz feminina ecoa pelo cômodo: “Au revoir, beau”. Ele finalmente consegue levantar a cabeça para ver a loura saindo do salão daquele hotel digno de beira de estrada. A visão daqueles cabelos lhe causa arrepios de horror. As lembranças começam a voltar e junto com elas a sensação de ser alguém desprezível.
O ritmo de uma bandinha de rua começa a chegar perto. De alguma forma as batidas se regulam com o pulsar do seu coração e finalmente começa a pensar onde tinha se enfiado. Ele não sabe se é a coisa certa a se fazer, mas resolve se levantar e começar a caminhada que o levaria para casa. Era lá que ele a encontraria. Quem ele realmente ama e de quem precisa. Espera que no caminho consiga descobrir como tudo isso começou, onde terminou e como ou se contaria para ela. Valia a pena?
Logo que sai daquele lugar – e consegue sentir outro cheiro que não o de mofo e poeira – começam a aparecer algumas cenas soltas em sua mente. Estava com um amigo que precisava de alguém para conversar. Pediram whisky, só para acompanhar o papo. Eles beberam várias doses. Havia aquela francesa, sozinha no balcão. Por algum motivo que ainda não tinha recordado, foi ele que procurou a mulher. Talvez o amigo tivesse ido embora. Ele pediu mais uma dose de whisky para o sujeito com peruca torta atrás do balcão. Na lembrança seguinte ele já estava deitado na cama de colchão gasto com a francesa e a maldita garrafa de vodka barata.
Olhando para a estrada na qual segue ele avista um telefone público em um posto. “Talvez fosse bom ligar para ela... Talvez não”, e continua andando sob o sol quente pelo caminho que o levará até sua casa. “Espero que ela tenha pensado em mim quando adormeceu”. Pensando nisso se lembra do celular e procura por algum sinal da preocupação dela. O aparelho está sem bateria. A ideia de tempo o confunde. Não sabe que horas são ou quanto tempo se passou desde que chegara àquele hotel.
Ele fecha os olhos e suspira. Queria estar ao lado de quem ama. Passarinhos cantam perto dali. É o mesmo canto que ouvia enquanto tomava café da manhã com ela. Ainda não sabe o que fazer ou o que contar sobre a noite anterior. Ela sabe que é a mulher da vida dele, que isso já tinha sido provado inúmeras vezes, que é ela que ele morreria defendendo. Será que ela lembraria disso? Ele olha para o anel na mão esquerda e pensa em flores. Rosas mais especificamente. Depois das imagens que vieram à sua mente, tudo o que ele quer é deitá-la em uma cama feita das mais belas e perfumadas rosas, enquanto ele merecesse estar cravado em uma coberta de pregos. Tudo que queria agora é que os últimos acontecimentos fossem cenas de um filme. Que ele pudesse apenas levantar-se da poltrona, deixar o balde de pipoca na mesa de centro e encontrar sua mulher logo a frente. Porém, não é assim que as coisas funcionam. Se não podia comprar as flores mais especiais do mundo, ele compra as mais bonitas de uma floricultura que cruza seu caminho para casa, onde espera encontrar aquela que ama.
Baseado em: Bed of Roses, da banda Bon Jovi. Composta por Jon Bon Jovi.Faixa 5 do disco Keep te Faith, de 1992.
Deitada na minha cama, olhando para o teto, escutando música e ligeiramente entediada. Isso me faz pensar em como você ocupa meu tempo. Em como você faz isso bem. Me faz lembrar como apenas estar ao seu lado, vendo imagens frenéticas na televisão ou os nossos pés mexendo juntos, me deixa feliz como nunca imaginei que pudesse ficar. Quem diria que um dia eu ficaria assim! Quem diria que um dia alguém me deixaria assim!
Quando a gente acaba dormindo por uma razão ou por outra e eu te vejo acordando ao meu lado, isso também me deixa incrivelmente feliz. Olhar para você e ver que o seu sorriso corresponde ao meu me deixa triplamente feliz. Uma felicidade que há até pouco tempo eu considerava utópica. Admito que me tornei muito daquilo que nunca compreendi ou sequer acreditei. Como diria o poeta: Keep the faith!
Certa vez me iludi ao ponto de achar que amava alguém. Não. Não era bem isso. Agora eu posso verdadeiramente e conscientemente falar “Eu te amo”, sabendo o que isso significa. Sei também qual é a diferença entre amar meus amigos e amar você. Paradoxalmente se alguém um dia me pedir para explicar o que é isso, sinto muito, não sou capaz de descrever em palavras o que acontece comigo. O que você despertou em mim. O que você me mostrou ser real.
Agora que você está longe eu fico sem saber o que fazer certas horas do dia. Me perco sem ter você ao meu lado. Sei que você não vai ficar longe por nem 10 dias, mas... caramba! Como eu sinto a sua falta! Será que dizer isso seria exagero da minha parte? Antiquado? Ou apenas sincero?
Procurei alguma coisa que pudesse funcionar como intermediária entre o aperto que não larga meu coração e você. Acabei encontrando algo muito além do que procurava. Algo que juntou tudo o que venho descobrindo nos últimos meses e me mostrou que a felicidade que eu acreditava ser impossível existe. E que agora eu também sei o que é. Assim que você chegar eu mostro o meu novo achado.
Ainda faltam alguns dias. Não consigo deixar de te procurar em fotos, de tentar achar seu cheiro nos meus braços, o seu abraço em um simples travesseiro. Meu cérebro sabe que daqui a pouco você está de volta, mas ele esqueceu de dividir essa informação com outras partes de mim. Sei que tudo isso pode parecer demais, que minha saudade por um lado até pode ser positiva. Na verdade, o que eu preciso mesmo, é te dizer como me importo com você, como você é importante para mim e como eu sinto a sua falta.
Baseado em: I miss you, da banda Incubus. Composta por Brandon Boyd, Michael Einziger, Alex Katunish, Christopher Kilmore e Jose Pasillas.Faixa 11 do disco Make Yourself, de 1999.
Notas da autora:
1) Esse texto foi escrito no dia 20 de fevereiro;
2) Desculpem pelo abandono, espero conseguir voltar ao ritmo agora que as férias estão quase no fim e minha preguiça eterna deve ir com elas.
Com o passar dos anos, das décadas e das gerações, alguns hábitos dão lugar a outros que vão ter mais importância ou não para as pessoas que vivem sob aquela realidade. Se o fato de a minha avó trabalhar fora na primeira metade do século XX, e ter um cargo relevante numa empresa importante, poderia assustar os mais conservadores da época, eu me assusto com mulheres que, 100 anos depois, preferem ficar esquentando a barriga no fogão a trabalhar fora e ter o mínimo de independência do marido. Pulando algumas etapas e chegando no meu objetivo inicial, sexo é uma coisa da vida que também já conseguiu superar alguns tabus. Mas ainda tem muita gente que enxerga isso como algo extraordinário, sagrado e que só pode ser feito na ocasião “correta”. Minha humilde opinião seguida de uma historinha:
Um cara conhece uma menina. Ele tem uns 20 e poucos e ela está chegando nos 20. Ela é virgem, ele não. Até aí nenhum problema. Ela acredita em príncipes encantados. É aí que começa a história.
Apesar de viverem vidas bem diferentes uma da outra, o casal estava se dando muito bem. Ela tinha acabado de entrar na faculdade e ele estava formando. Isso não importava, ele estava completamente vidrado em todos os gestos e reações da menina. O jeito que ela arrumava o cabelo quando caía no rosto, o jeito que ela sentava na mesa do bar, como ela procurava alguma coisa dentro da bolsa ou tirava uma blusa de frio. Algumas vezes ele arriscava. Depois de saírem do bar ou outro lugar à noite, ele perguntava se ela queria ir pra casa dele. Mas ela sempre respondia que preferia ir pra casa.
Ele esperou. Coisa de mulher, ainda não tá se sentindo segura. Esperou mais um pouco e perguntou de novo. A mesma resposta. Ele esperava também alguma surpresa! Quem sabe um dia ela não ligava perguntando se poderia ir pra casa dele, que estava precisando sair um pouco da casa dela? Ele esperava noite e dia por algum sinal. Mas chegou uma hora que esperar já não resolvia nada. Quanto mais ele esperava mais o tempo parecia se arrastar. Enquanto isso ele se lembrava de outros relacionamentos e via seus amigos correndo na sua frente. Sem dúvidas eles estavam muito mais felizes. Não suportava mais a ideia de hesitar, de estar preso àquela situação.
Ele já não sabia mais o que fazer. Continuar esperando, ou arrumar outra “diversão” enquanto a dele não se resolvia? Afinal eles não tinham nada muito sério ou certo. Um dia resolveu aparecer na porta do prédio em que ela morava de surpresa. Pelo horário ela estaria em casa. Parou o carro e olhou para a janela que um dia ela apontou como sendo o quarto dela. As luzes estavam acesas e parecia haver alguma movimentação. Pegou o celular e ligou pro número dela. Como ela morava no térreo, ele conseguiu ouvir a introdução de Viva la Vida, o toque do celular. A moça da caixa posta começou a conversar com ele e ele desligou. Dez minutos depois ele voltou a ligar. “I use to rule the...”. Ela desligou o aparelho. Ele olhou novamente a janela. As luzes continuavam acesas.
Na mesma noite, quando ele estava bebendo com os amigos em um buteco, ela retornou as ligações. “Eu te liguei às nove horas. Agora são quinze pras duas. Queria saber se você queria sair.” Ela deu uma desculpa qualquer e desligou o celular. Qualquer interesse que um dia ele teve por ela tinha terminado de acabar. Ele simplesmente não podia continuar esperando ou suportar tanta hesitação da parte dela. Não era pra ser, então não foi. Esse era o pensamento que ficava na cabeça dele agora. Apesar de tudo, ele esperava que ela encontrasse o príncipe encantado com quem tanto sonhava. Ele já tinha encontrado um caminho para seguir. Pensava se um dia ela acordaria para a realidade. E se esse dia não tardaria muito a chegar.
Baseado em: Hung Up, de Madonna. Composta por Madonna,Stuart Price,Benny Andersson, eBjörn Ulvaeus.Faixa 1 do disco Confessions on a Dance Floor, de 2005.
_ Mãe, você não precisa ficar me falando essa ladainha toda de novo. Eu já sei disso tudo. Eu não vou me esquecer das minhas obrigações, eu não vou fugir delas. Só não vou mais morar com você.
_ Me desculpa se não fui a mãe que você sonhou. Se não sou tão incrível como as mães dos seus amigos. – O silêncio tomou conta do lugar durante alguns segundos e ela retomou a conversa – Se você tiver se esquecido de levar alguma coisa pode me ligar que eu levo pra você. Ou você pode vir buscar quando quiser. – Mais silêncio – Se um dia você precisar, ou quiser dormir aqui também pode vir.
_ Eu também não sou o filho perfeito, mas você é minha mãe. Não quero que você passe a noite em claro por minha causa. Espero que isso não aconteça. – Ele pensou duas vezes e preferiu dizer o que estava na sua cabeça – Sempre fui diferente dos meus irmãos. Nunca fui tão certinho quanto eles.
_ Você não quer vir lanchar comigo no sábado à tardinha? Eu arrumo uma mesa com bolo de cenoura com cobertura de chocolate, guaraná e aquela torta que você gosta. Coloco muito tomate! Seus primos estão aqui, posso falar com eles também!
Mais tarde ele se encontrou com uma amiga em um bar:
_ Sei que vou sentir falta da minha mãe. Pensar nela quando eu acordar e não der “Bom Dia” para ela. Mas eu não podia continuar convivendo todos os dias. E também já estava na hora de eu sair de casa!
A garota pegou um guardanapo da mesa onde estavam, tirou uma caneta da bolsa e rabiscou algumas palavras. Em seguida deu o papel para o amigo. Ele leu e releu. Eram poucas palavras, como se fossem parte de um poema, que resumiam a então relação dele com a mãe. Muito mais simples e sincero que qualquer coisa que filósofos ou poetas pudessem escrever. Ela conhecia a família há mais de uma década. Sabia bem o que se passava ali.
O sábado chegou. E ele estava indo pra casa da mãe quando pensou em levar alguma coisa pra ela. Passou na floricultura e comprou algumas mudas de flores que chamaram a atenção dele. Muito coloridas e com uma combinação diferente entre elas. Ficariam bem na jardineira da sala da frente. A vendedora contou que elas se chamavam Amor Perfeito. Seria um bom presente. Sua mãe gostava de mexer com a terra. Ele sentia um pouco de culpa pelas palavras que disse a ela há quase uma semana.
Quando chegou na rua que morava até a semana anterior ele viu a luz da sala de visitas acesa. Estacionou o carro, pegou a caixa com as flores para serem plantadas e procurou no bolso as chaves de casa. Ou daquela casa. Pensou e preferiu tocar a campainha.
_Você não precisa tocar a campainha meu filho. Essa casa é sua. Você pode voltar quando você quiser.
Ele estendeu a caixa com as flores e disse:
_ A moça da floricultura disse que se chamam...
_ Amor Perfeito – completou a mãe.
_Achei que ficariam bonitas naquela jardineira, na frente da casa.
_ Vão ficar lindas.
Baseado em: Amores Imperfeitos, da banda Skank.Composta por Samuel Rosa/ Chico Amaral. Faixa 4 do disco Cosmotron, de 2003.
Nota da autora: Desculpem o sumiço. Me dei o mês de dezembro de férias do blog!
O final do semestre, quando junto com o final do ano, me faz pensar em uma coisa em especial. Há quanto tempo não vejo meus amigos, meus maiores amigos? Alguns podem dizer que, como eu faço aniversário no fim do ano, e sempre comemoro, não deveria sentir essa falta toda, mas eu não funciono assim. São tantos trabalhos finais, provas, estudos e outras preocupações e ocupações que fico perdida. Não. Ver alguns deles uma vez por mês não me satisfaz!
Essa época me lembra também do último ano no colégio. Boa parte dos meus amigos de verdade estava na mesma situação que eu, ou alguma coisa parecida. Estávamos formando, tentando acabar com o 3º ano (sempre me vem à cabeça minha luta eterna contra a física. Eu queria ser amiga dela, mas ela nunca foi muito com a minha cara). Ao mesmo tempo estudávamos para o maldito vestibular ou, no caso de alguns em especial, ainda tentávamos escolher qual curso fazer. No meio disso tudo o clima de festa pairava no ar! Último ano no colégio, festas, e a aproximação de algumas das pessoas mais importantes pra mim. Momento piada interna: “Vocês moram naquela ZN?!”. Coincidentemente, ou não, o ano seguinte teve um perfil quase que exatamente igual. Tirando a euforia de sair do colégio, tudo era muito parecido em uma sala de cursinho pré-vestibular. Mais um grupo de amigos se formou e eu já sabia o que poderia acontecer no ano seguinte. Amizade não é um sentimento que se controle, ainda mais pra alguém como eu.
Se por um lado eu tinha a sensação de que aqueles grupos de amizade iriam durar pra sempre, meu lado racional, sempre me importunado, me lembrava que as coisas não seriam bem assim. Cada um iria seguir sua vida e não dá pra levar junto todas as pessoas que queremos. Um dia sonhei em tê-los comigo o tempo todo, pro resto da minha vida. Essa não é uma realidade plausível, eu admito. Medicina, Engenharias, UFOP, cursos em tempo integral. Foram essas algumas das nossas escolhas. E eu já sabia delas quando percebi que esses meus amigos eram a minha então principal razão de felicidade, quando percebi que tinha criado certa dependência deles. Culpados por um lado, mas totalmente inocentes por outro. Prefiro a segunda opção, não sou possessiva assim.
Apesar de toda essa distância, eu sei que ainda somos amigos, grandes amigos. Se eu os amo? Pergunta boba. Claro que sim e eles sabem disso. Ao menos espero que ainda saibam. De tempos em tempos intimamos todos para um encontro, com penalidades de alta periculosidade para os ausentes. Mesmo assim algumas baixas começam a aparecer. Os “piolhos de festa” estão sempre lá, mas algumas peças especiais não.
Sou chata e inoportuna quando peço notícias de vocês? Como anda a vida, quando vamos nos ver de novo? Mas encontrar de verdade, nada de prometer: “A gente marca um dia”. A gente sabe que esse dia nunca chega.
Isso não faz muito sentido, assim como muita coisa que se passa na minha cabeça, mas tenho uma sensação que carrego nos ombros a obrigação de não perder vocês. Fico imaginando 2017. “Festa de comemoração de 10 anos de formados no colégio”. Espero que todos vocês estejam na festa, provavelmente na laje mais amada do Brasil. No ano seguinte, 10 anos de “Sala de aula”. Também espero vocês, num boteco do Santa Tereza. E meus outros bons amigos que não se encaixam diretamente nessas categorias, a gente inventa um motivo pra encontrar. Acho que é isso que falta para que esse tempo tão longo entre um encontro e outro diminua.
Baseado em: Meus bons amigos, da banda Barão Vermelho.Composta por Guto Goffi / Mauricio Barros /Fernando Magalhães. Faixa 2 do disco Carne Crua, de 1994
Ele tinha pouco tempo de casado. Ou relativamente pouco tempo. Comemorou seus 5 anos de matrimônio da forma mais romântica que poderia imaginar. Café da manhã na cama, bouquet de flores no trabalho, jantar em um dos restaurantes mais famosos (e caros) da cidade. Tudo parecia estar na mais perfeita ordem. O casal pensava em filhos em um futuro próximo e, consequentemente, um lugar mais aconchegante para morar. A bela esposa se tornava cada vez mais bela e ele estava cada dia mais apaixonado. A vida estava em harmonia e ele não poderia pedir por nada mais que isso.
Mas nada não depende apenas da nossa vontade. Pelo menos não exclusivamente dela e de nossas atitudes. Pouco mais de duas semanas depois da comemoração das bodas, as coisas mudaram consideravelmente. Como sempre acontecia com a chegada de novos profissionais na pequena empresa em que ele trabalhava, naquela manhã o chefe bateu à sua porta e apresentou a mais nova contratada. Ele, um homem de 30 e poucos anos não conteve sua incredulidade. Com algo próximo dos 25, ela era uma das mulheres mais exuberantes que ele já tinha visto em toda a sua vida. Nesse momento qualquer lembrança de sua amada esposa já tinha desaparecido. Alta, de pernas compridas, magra na medida certa, tudo em seu lugar. Os cabelos louros quase ruivos, médios quase longos. Olhar naturalmente marcante e sorriso misterioso. A partir daquele momento a vida do então homem romântico e fiel virou de cabeça pra baixo.
A semana passou e a novata continuou na sua cabeça. Àquela altura sua mulher já não importava tanto. Já não era o amor da sua vida. O fim do ano veio junto com a tradicional festa de confraternização da empresa e com a gripe da esposa, que, desafortunadamente, não pode acompanhar o marido. Apesar dos interesses entre ele e sua nova colega de trabalho já estarem claros, eles se encontraram, por acaso, no balcão do salão onde acontecia a festa.
A reação de beijá-la foi quase instantânea, mas ela o evitou como poucas fariam. Deu meia volta ficando de costas pra ele e começou a falar: “Eu conheço seu tipo. Tem milhares à sua disposição, mas é apaixonado pela mulher com quem casou.”. Ela virou para ele continuou: “Agora você vai ter que se decidir.”. Chegando mais perto do seu admirador terminou: “Sei que você vai ver a luz. Tudo o que você precisa está aqui. Percebe?”. Ele não podia negar, tudo o que ele queria estava ali, na sua frente. Aquela quase menina era tudo no que ele pensava, estava aos seus pés. “Um dia, posso te garantir, eu vou estar com você num romance que você nunca teve com ela” disse levantando a mão esquerda aberta e voltou aos demais colegas de trabalho.
Naquela noite eles foram embora pouco depois um do outro. Ao se despedirem ela concluiu tudo o que tinha dito algum tempo antes: “Você vai ser meu e eu vou ser sua. Não duvide disso. Vai estar tudo bem e vamos ter tudo o que sonhamos. É só você fazer sua escolha.”
Ao contrário do que as duas centenas de testemunhas ouviram no dia do casamento dele, menos de três meses depois que conheceu a mulher do sorriso misterioso ele pediu o divórcio à sua antes amada esposa. Menos de uma hora se passou e ele encontrou a outra em um charmoso bar de um bairro distante. Quando contou sua decisão para sua nova amada ela respondeu provocativamente: “Sabe porque você largou sua esposinha amada? Porque ela não é como eu”. Ela se levantou da cadeira, deu uma última piscada ao mesmo tempo que o vento batia em seus cabelos. Por fim a loura quase ruiva se virou e foi embora.
Baseado em: I’ll be anything you want, de Melissa Auf Der Maur. Composta por Melissa Auf Der Maur. Faixa 7 do disco Auf der Maur, de 2004
Agora eles estavam quase saindo de casa. Enquanto ele apreciava a garota terminando de se arrumar, ela procurava por todos os cantos aquele par de saltos lindos que comprou de presente de natal para ela mesma. Ele estava escorado na moldura da porta (um dia aprendi que isso na verdade se chama umbral), com a roupa de sempre: calça jeans bem confortável, camiseta com algum desenho legal estampado e All Star vermelho. Não conseguia entender porque a sua garota demorava tanto para se arrumar, mas ainda assim gostava muito de observar esses momentos.
Eles já estavam juntos há uns cinco anos. Morando sob o mesmo teto há pouco mais de um. Como de costume estavam indo para um dos pubs da cidade. Além de vários amigos freqüentarem o lugar, a programação da noite prometia ótimos covers de clássicos do rock. Eles até tentavam outras opções, mas sempre voltavam para o mesmo lugar, aliás, onde se conheceram.
Eles eram dois universitários no fim do curso. Preocupados demais com a formatura (e todo o resto que vinha com ela) e sem dinheiro pra muita farra. Estavam nesse tal pub cada qual com seu grupo de amigos. Na época ela estava de caso com um carinha amigo do primo. Ou primo do amigo, não faz diferença. Uma certa hora da noite, quando era a vez do nosso protagonista ir buscar cerveja, ele encontrou com ela e sua beleza incomum no balcão. Eles se olharam, ela sorriu educadamente e foi embora. Ele não resistiu e olhou pra trás. Tudo que pode ver foi o longo cabelo castanho e um pouco da comprida bota que se misturava em meio a tantas pernas que havia pelo caminho. Depois de uma série de “auto-xingamentos” ele voltou para seus amigos.
Naquele dia quem tocava era um cover de The Doors. Durante a apresentação ele pode ver o olhar ameaçador da garota do balcão e pensava: “Você ainda vai ser a minha garota”. Porém, quando viu que ela estava acompanhada bateu um desanimo que o levou pra casa mais cedo que de costume.
Duas semanas depois lá estava ele em um outro pub. Dessa vez quem “tocava” era o Led Zeppelin. Qual não foi a surpresa ao ver a garota dos longos cabelos castanhos e botas? Ele reparou se havia alguma companhia suspeita e foi até a sua futura garota sem nem comentar com os amigos. Ela se lembrou dele assim que o viu aproximando. Ao contrário de semanas antes, dessa vez eles conseguiram conversar como queriam.
Voltando ao apartamento do início da história, ela olhou para seu observador e falou: “Estou quase pronta”, mas quando abriu a carteira voltou atrás. “Não... cadê meu dinheiro?!”. Ele sorriu e cantarolou “You don't need that money when you look like that, do ya honey”. “OI?!” ela disse indignada. “Nada honey, tava só lembrando uma música, vamos? É seu aniversário e seus convidados já devem estar te esperando. Esqueceu que eu pago a sua conta?”. O tal olhar ameaçador não descansa, por mais doce que ela pareça ser. Ele estendeu a mão para ela e chamou: “Vamos?”.
Baseado em: Are you gonna be my girl, da banda Jet. Composta por N. Cester e C. Muncey. Faixa 2 do disco Get Born, de 2003
Um dia desses, eu estava conversando com a minha avó e ela resolveu me contar uma história dela e do meu avô, quando ainda eram namorados, ou sei lá como isso se chamava naquela época. A história aconteceu em uma tarde de outono, num parque da cidade e foi mais ou menos assim:
Ao contrário do que normalmente acontecia, meu avô chegou de surpresa na casa dos meus bisavós para levar minha avó para passear. Como ele já tinha conquistado a confiança dos sogros, eles saíram tranquilamente. Minha avó reparou numa coisa estranha. Ele levava uma cesta na mão... um piquenique provavelmente, mas porque ele não pediu para ela arrumar a cesta? Largou a curiosidade pra lá e acompanhou seu amado.
Eles estavam namorando havia uns 4 anos e estavam muito felizes. As irmãs da minha avó morriam de inveja em ver um casal tão bonito e que tinha tudo para dar certo. Elas não tinham a mesma sorte. Enfim eles chegaram ao parque mais bonito da cidade. Juntos montaram o que seria o lanche da tarde com todas as delícias que meu avô tinha trazido dentro da cesta. “Com certeza isso foi ideia da minha sogra” pensou a minha avó, na época uma senhorita dona de uma cintura de deixar no chinelo qualquer modelo magrela. O casal se sentou e começou a conversar e coisas afins que namorados faziam naquela época (ela não entrou em detalhes sobre essa parte).
Um momento de silêncio e meu avô começou a imaginar algumas coisas: “Helena, já imaginou nossas vidas daqui alguns anos? Eu começando a perder meus cabelos e usando uma boina para disfarçar. Você com um coque prendendo os cabelos. Preferia que você continuasse com eles soltos, mas pelo que vejo por aí, depois de um tempo as mulheres costumam mantê-los presos. Nossos filhos já vão estar casados. Vou continuar te dando presente de dia dos namorados, sabia?”
Essas palavras foram totalmente inesperadas. Ele não costumava falar sobre o futuro com ela. Minha avó disse que ficou muito feliz. Encostou-se no ombro dele e continuou escutando. “Você vai me dar feliz aniversário e uma garrafa de vinho. Depois de certa idade as pessoas elegantes ganham vinho de aniversário. Nós vamos ser um casal elegante! Mas se um dia eu chegar tarde em casa, depois de um dia de trabalho... você ainda vai me receber na porta, não vai?”. Ela respondeu com um longo suspiro e um “uhum”.
“Quando estivermos lá pelos nossos... 64, 65 anos, você ainda vai me querer ao seu lado? Ainda vai fazer o almoço de domingo?” Confesso que a minha reação nessa parte não foi muito agradável, mas era a época, fazer o quê. Já ela respondia a tudo afirmativamente e muito feliz, as lágrimas estavam se preparando para entrar em cena (na história e na narração). “Ainda vou ser muito útil pra você. Posso trocar a lâmpada da sala e consertar um fusível queimado. E quando você se cansar posso te encher de amor e carinho. Acho que você vai me dar um suéter que você mesma fez no inverno. No domingo de manhã, enquanto esperamos nossos filhos chegarem para o almoço, vamos passear pelo jardim, brincar com os cachorros. Vamos ter dois. E um gato também. Sentados no meio das plantas vamos cuidar delas. Tirar todas as ervas daninhas e plantar novas espécies. Aposto que você vai querer as mais variadas orquídeas nos fundos e as rosas mais coloridas na parte da frente da casa.” Ela não poderia ter imaginado futuro melhor! A essa altura os olhos da minha avó já estavam marejados à minha frente.
“Sabe o que vamos fazer nas férias de verão? Pegar nossos netos e levá-los para uma casa de praia num lugar mais distante, no sul do país. Vamos ter três netos: a Vera, o Davi e o Carlos. Ainda não sei quem é o mais velho, mas o Carlos é o mais novo, com certeza. A casa de praia não deve ser muito cara... mas se for você usa sua incrível habilidade para pechinchar.”
“Eu sei que você vai viajar de vez em quando. Ver sua família e tudo mais. Me promete que vai me mandar um cartão postal ou um telegrama? Quero saber como você está, se suas irmãs continuam rabugentas. Pode ser sincera comigo, não vou contar pra elas o seu ponto de vista.”
Depois de toda uma tarde fazendo esses planos para mais de 50 anos depois, meu avô finalmente chegou no ponto que queria: “Mas Helena, antes de tudo isso acontecer, você precisa me dizer apenas uma palavra”. A essa altura o rosto da minha avó já estava sendo lavado pelas lágrimas. “Você quer se casar comigo?”
Baseado em: When I’m sixty-four, da banda The Beatles. Composta por Paul McCartney e John Lennon. Faixa 9 (ou 2 do lado B) do disco Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, de 1967.
Quando nós nos conhecemos parecia que tudo estava a nosso favor. Nada poderia atrapalhar essa história tão inusitada e tão bonita. Muita gente colocava olho gordo na relação, mas, eu pelo menos, nunca liguei pra isso. Os anos se passavam e os comentários persistiam. Enquanto isso nós seguíamos em frente, sabíamos onde queríamos chegar. Era a nossa história, ninguém tinha que se meter, a opinião alheia não fazia diferença nas nossas escolhas. Desde de o primeiro dia que eu te amei, nada mais importava, a não ser você.
Finalmente nos casamos. Você era a mulher da minha vida, tudo o que eu sempre sonhei e algo mais. A felicidade era o sentimento que preenchia a nossa casa. É verdade que tudo era muito simples. Apenas um detalhe. Ainda assim, nossas poucas posses e vida sem grandiosidades não te incomodavam, mas resolvi te dar uma vida melhor. A futura mãe dos meus filhos merecia o máximo de mim. Como eu te amo, baby. Desde que eu andei amando você meus amigos dizem que eu sou o rei dos idiotas. Nunca quis acreditar nem na metade do que eles me diziam. Irônico, não?
Desde que eu andei amando você eu trabalho das 7 até as 11 da noite. Você tem ideia de como eu te amo? Tudo o que eu queria era te dar o melhor. Mentira de quem disser que dinheiro não ajuda nessas horas. Não nego que a vida que eu levava era uma merda. Era mesmo uma droga, mas eu te amava e ainda te amo. Isso me levou ao ponto de relevar o ser angustiado que vivia dentro de mim. Desde que eu te amo, baby... Algumas coisas mudaram, enquanto outras continuam marcadas.
Desde que eu te amo venho bancando o idiota mor. Saía cedo de casa. Te dava um beijo apaixonado de bom-dia. Você retribuía fingindo que me amava. Depois de todo um dia me remoendo por não estar ao seu lado, finalmente abri a porta da frente da casa que construímos juntos. Estranhei um barulho de porta se fechando no mesmo instante. Você chegou ofegante da cozinha, algumas mechas de cabelo fora do lugar. Apesar de cansado consegui ouvir passos pelo lado da casa e tive a sensação de que algo não estava certo. Quando finalmente vi o seu rosto percebi sua expressão preocupada. No dia seguinte você já tinha saído de casa com nossos filhos. Meu amor não se foi com você.
Bati em sua porta. Queira te ver, ver meus filhos. Você se lembra da sua reação? As crianças estavam na sala e você gritou pra quem quisesse ouvir: “Eu não te quero mais!”, como se fosse simples assim. Andei chorando como o céu durante as tardes de verão. Consegue ouvir minhas lágrimas caindo, meu amor?! Todo mundo sempre me alertou para o tipo de vadia que você era.
Deus! Já te disse como eu tentei nessa vida? Como eu ainda tento! Tentei fazer dela a mulher mais feliz do universo. Tentei ser um bom pai. Deus! Sabe o quanto eu me sacrifiquei, como eu fiz o melhor que pude desde que amo essa mulher! Estou de novo a ponto de me descontrolar. Estou na beira do precipício.
Como eu te amo... Como eu ainda te amo? Ainda trabalho das 7 às 11 da noite todos os dias. Quem sabe assim não consigo te esquecer. Minha vida é um saco. Ainda sou o rei dos idiotas. Eu sou o rei dos idiotas desde que andei amando você.
Baseado em: Since I’ve been loving you, da banda Led Zeppelin. Composta por Jimmy Page, Robert Plant e John Paul Jones. Faixa 4 do disco Led Zeppelin III, de 1970.
Pra quem gosta de levar uma vida agitada como ela, os últimos meses foram como se ela estivesse em um SPA. Nada acontecia. Nada de bom, nada de ruim... A monotonia tomava conta da vida familiar, da social, da profissional, da acadêmica, da vida amorosa então nem se fala. Ela queria sair quase toda noite, mas odiava não ter companhia pra isso. A época do ano, final de semestre, fazia todos os seus amigos estarem ocupados demais tentando passar naquela disciplina chata. Quando chegava a tarde de sábado a garota não se continha e ia até a sorveteria não tão próxima da sua casa. Pelo menos ia poder passear pelas ruas (vazias)... Impressionante como era difícil ver os vizinhos caminhando pelas praças e entre as árvores daquela região tão tradicional da cidade.
Por algum motivo estranho, enquanto caminhava pelas ruas se deliciando com os três sabores de sorvete e as obrigatórias castanhas, sentia que aquele lugar por onde ela passava testemunhava a vida de quem morava por ali, ou simplesmente freqüentava a região por alguma razão. Pensava como aquelas calçadas e ruas “sabiam” da vida daqueles bairros, que de tão pequenos não era possível perceber a transição entre um e outro. Voltando à realidade, balançava a cabeça e lembrava que asfalto e cimento ainda não tinham desenvolvido memória ou um meio de contar sobre tudo o que testemunham.
As semanas passaram e o ano já estava quase no final. O semestre na faculdade estava terminando, todos os últimos trabalhos encaminhados e só faltava imprimi-los no dia anterior da data marcada para a entrega. Ela continuava tentando achar companhia para algum show, inferninho, teatro ou boteco que fosse. Os amigos diziam que as provas finais estavam chegando, que ainda não tinham pontos suficientes e o pior de tudo, os professores não estavam muito animados para ajudar um aluno que seja. A solidão fazia uma visita para a garota que passava horas deitada na cama olhando para o teto e escutando música.
Numa dessas horas ela se lembrava de seus amigos e amantes... De como é bom estar com eles. Observadora como é, lembrava exatamente dos gestos que marcava cada um deles. Dos mais complexos e escandalosos, aos mais simples e leves. Estar com eles era como sair da realidade que a perseguia. Sim, ela adorava a vida que levava: seu curso, trabalho, família. Mas escapar disso de tempos em tempos também era muito bom. Rotina nunca foi uma palavra agradável para ela. Sentia-se como se pudesse voar ao passar as noites com essas pessoas. Nesses momentos tinha certeza que não haveria grandes preocupações, apenas alegria.
Finalmente terminou o semestre, mas a garota não se deu conta dos compromissos que tinha para as férias. Boa parte de seus amigos estava formando. Os bailes iriam acontecer quase que a cada duas semanas. Finalmente ela teria uma noite inteira do jeito que ela mais gosta. Aliás, uma não, algumas! Ela gostava de dizer que esses eventos com seus amigos e pretendentes eram “um dia de gente”. Um dia que ela poderia viver da forma como mais gosta. (Quase) Sempre comendo e bebendo do melhor, dançando ao som das músicas mais animadas (mesmo que não sejam as suas preferidas), na companhia de algumas das pessoas mais importantes para ela. Ao primeiro bocejo alheio ela fazia de tudo pra manter o sonolento acordado. “Hoje é proibido dormir!” ela avisava a todos com uma animação que tanto era capaz de contagiar quanto de cansar seu alvo.
De qualquer maneira, uma coisa era certa. Sempre que ela estava presente os amigos sabiam que aquela noite só terminaria com o nascer do sol, provavelmente na mesma padaria de sempre, com todos comendo pão passado na chapa com café. Essa era a única rotina permitida pela amiga. Mais que permitida, rigidamente cumprida.
Baseado em: Eu contra a noite, da banda Kid Abelha. Composta por George Israel e Paula Toller. Faixa 1 do disco Surf, de 2001.
Às vezes eu fico reparando nas pessoas à minha volta. Algumas delas me fazem felizes, algumas não fazem a menor diferença pra mim, outras me fazem pensar sobre um ponto em especial. Isso pode parecer discurso de quem não consegue o que quer, ou qualquer outra coisa do tipo, mas certa música do Pato Fu me faz pensar por um ângulo diferente.
Nunca fui muito boa em competições, até porque não gosto de competir. A não ser que seja por um ótimo motivo, e olhe lá. É... Talvez seja por isso que não ligo a mínima por competições esportivas, por exemplo. Enfim, por mais que esse espírito competitivo não me consuma, sei que ele também tem seu lado positivo. Como sugere a letra de “Perdendo os dentes”, da banda mineira já citada, aprende-se muito mais com as derrotas que temos ao longo da vida que com as vitórias. Se pensarmos apenas pelo lado da perda em si, é com elas que descobrimos como melhorar nossas estratégias. Mas são também elas que nos fazem dedicar mais aos nossos reais objetivos e, principalmente, nos ensinam a lidar com o insucesso.
Sinto por aqueles que desconhecem a derrota, para quem a vida parece sorrir o tempo todo. A passagem dessas pessoas pela Terra acaba sendo algo extremamente monótono. Sem grandes variações, tudo sai sempre como o planejado. Até onde eu saiba, viver pede mais por emoção e improviso que por planilhas rigorosamente seguidas. Os que se veem salvos de sofrer, não imaginam como perder faz alguém maior e dá mais força para tudo o que ainda está por vir.
Por falar em força, uma coisa curiosa que já reparei em supostos grandes vitoriosos é como eles parecem ser fortes para tudo. Por outro lado, fica claro como eles agem quando estão seguros dos olhares alheios. Eles também tem sentimentos e não, não são perfeitos em tudo. Incapacitados de admitir isso vivem escondendo suas fraquezas. Afinal são escravos da mesma vitória que parece trazer tantas glórias.
Apesar de não me importar muito com competições (e nem ser alguém que ganhe com freqüência), posso ver como um vencedor desmorona quando algo acontece fora do esperado, seja por falha sua ou alheia. A preocupação exagerada com o ganhar faz com que outras coisas da vida sejam deixadas de lado. Prefiro seguir assim. Levo as coisas como posso, sempre dando o melhor de mim, mas nunca deixo faltar amor nos meus objetivos. De que me adiantariam grandes metas sem amor por elas? Exatamente: nada. Prefiro ficar em paz comigo mesma, e feliz! Até porque, como já diria Raulzito, “É chato chegar a um objetivo num instante”, prefiro as surpresas, a expectativa e os imprevistos do caminho até chegar lá.
Baseado em: O Vencedor, da banda Los Hermanos. Composta por Marcelo Camelo. Faixa 2 do
Antes que qualquer coisa possa começar preciso te falar (ou avisar sobre) algumas coisas. Deixar claro que comigo nada é tão simples ou claro. Há muito tempo minha cabeça não funciona muito bem. Dizem por aí que eu sou louca. Até que, em certa medida, eu concordo com esse status. Ainda assim tento mudar isso. Sei que muitas vezes não parece, mas sim, eu tento. Não é exatamente fácil, muito menos como eu gostaria.
Pra começo de conversa eu não nasci numa família exemplar. Nunca vi meus pais juntos. Na verdade, conheço muito pouco deles. Um pouco mais da minha mãe, já que ainda era com ela que eu morava. Com ela e meus irmãos. Pensando bem, acho estranho quando vejo uma família completa. Pai, mãe, filhos e cachorro. Isso nunca fez parte da minha realidade. Não convivi com meu pai. Dia dos pais e Natal, de vez em quando o aniversário de um de nós, seus filhos, eram dias realmente especiais. Veríamos nosso pai, estaríamos com ele. As expectativas eram grandes, mas o encontro em si se resumia a vê-lo, abraçá-lo e ir fazer alguma coisa com os irmãos. Enfim, esse era um ponto importante que você deveria saber. Sim, gostaria de ter tido um pai comigo, mas não, essa não era a minha vida.
Tenho a impressão que se eu tivesse tido um pai teria tomado as decisões certas. Não que eu me arrependa de tudo que fiz ou que minha mãe não tenha tido influência sobre esses momentos. Mas que ela sempre estava ocupada e preocupada demais tentando dar o mínimo para os três filhos sem depender de ninguém. Sou a segunda da escadinha. Entre um irmão um ano e meio mais velho e uma irmã um ano e meio mais nova. Tire suas próprias conclusões sobre isso.
Às vezes assisto a algum capítulo de uma novela qualquer que está passando. Copacabana, Leblon, às vezes algum lugar em São Paulo... Isso quando não pego a trama no início que tem algum personagem na Holanda, Suécia, Espanha, França. Deve ser bom ter tudo aquilo. Queria que meus seus problemas fossem a dúvida se amanhã vai fazer sol e vou poder me divertir jogando frescobol na praia. Tem aquelas casas em lugares inabitados também. É só acordar, colocar o suco no copo da belíssima mesa de café da manhã (que é inteiramente desperdiçada), trocar duas palavras com quem estiver por ali (“Bom Dia”), pegar o protetor solar e ir de encontro ao mar. À noite, depois de tomar sorvete passeando pela avenida que margeia a praia, poderia ir à melhor pizzaria da região e beber um bom vinho tinto. E a melhor parte, em alguma dessas situações eu encontraria o amor da minha vida.
Depois de todas as dificuldades enfrentadas, eu e meu amado faríamos enormes fogueiras, reuniríamos nossos amigos e cantaríamos clássicos do “Música para Acampamentos” da Legião Urbana e algumas outras do Nando Reis. (Suspiro) Ia ser tão mais fácil se as coisas dessem um pouco menos errado.
Admito. Eu gostaria de ter um namorado, um amante. Não preciso de tudo que as novelas me fazem querer. Mas também queria ter um pai. Não consigo dizer que tenho um. Sou consideravelmente doida e às vezes acho que fui eu quem escolheu ser assim. Para mim, momentos de fúria são comuns não apenas certos dias do mês. Minha cabeça é algo insano que não consigo organizar. Muita gente já desistiu de mim por esses e outros motivos. Se você realmente está disposto a encarar todos esses “problemas” te digo que estou disposta a tentar. Tentar com toda a força que existe em mim. Com todo o meu coração. Tenho sede de vida e quero transformar a minha. Espero que amando você, eu consiga encontrar um ponto de onde começar.
Baseado em: Lust for Life, da banda Girls. Composta por Christopher Owens. Faixa 1 do disco Album, de 2009.
Os telefones que a cercavam faziam parecer que ela estava constantemente numa delegacia. Desta vez, o fixo tocou e a moça do telemarketing disparou:
_Boa TaRde, a senhora Giselle GeRms.. GeRmsno... Germsnotta está?
Ela morava sozinha e mais uma vez o telefone atrapalhava sua vida. Tentando se livrar logo da menina do outro lado ela respondeu:
_Olha, a dona Giselle foi trabalhar e só deve voltar bem tarde.
_Tem algum outro número que eu consiga falaR com ela? – insistia a vendedora de uma assinatura qualquer que não interessava.
_Não tem não. Sabe, ela é contra telefone.
_Ah sim, entendo. A editora X agradece sua atenção e deseja uma boa taRde. – tu, tu, tu...
A noite estava chegando e o telefone continuava a tocar:
_Oi mãe. Não, ainda não sei o quê eu vou fazer hoje. Pode deixar mãe, vou levar o juízo comigo. Mãe! Chega! Tchau. Tá, eu também te amo, posso ir agora? Tchau, beijo.
Pouco tempo depois foi a vez das amigas, o primeiro telefonema que ela recebeu com boa vontade naquele dia. Queriam tirá-la de casa, o que era uma boa ideia, já que assim seria mais fácil fugir dos problemas que a perseguiam há alguns meses. Elas contaram que haveria uma espécie de rave em um sítio em uma cidade próxima e que seria ótima.
Pensou duas vezes antes de aceitar o convite. Lembrou de um carinha ela gostava, mas a relação entre eles era um tanto estranha. Passava semanas ignorando a existência dela e, de repente, ressurgia. Ela não admitia, mas queria que ele ressurgisse essa noite. Recobrando a consciência e vendo que realmente precisava esquecer muita coisa, a moça concordou em ir e foi se arrumar.
Chegaram ao local e a festa realmente estava cheia e muito animada. Finalmente a noite prometia. O grupo de amigas foi direto para o bar e cada uma saiu de lá com uma bebida mais colorida que a outra. Apenas conversaram, beberam e observaram a multidão durante quase uma hora. Depois de alguns outros drinks, elas então foram dançar acompanhadas de seus copos. A cada música que tocava elas ficavam mais animadas e entravam mais no clima do lugar.
Como que para não deixá-la esquecer, o celular da garota Germsnotta voltou a tocar. Sem olhar no visor o nome que chamava, ela foi para um lugar que parecia tranquilo e “silencioso”.
_Alô? Alô?! ALÔ!!!
_Oi! Sou eu, onde você tá?
Era o carinha. Por um segundo ela ficou feliz e quis vê-lo novamente.
_Eu to num lugar que minhas amigas me trouxeram, não sei muito bem onde é. Oi?! Não tô te escutando. O sinal aqui é péssimo.
Ela tentou escutar uma resposta do outro lado da linha, mas não conseguiu. A ligação caiu. Sem muita opção, ou grande preocupação, ela voltou já dançando e sorrindo para suas amigas... e seu copo.
Alguns minutos depois, o celular chamou novamente. Está tocando uma música que ela gosta, mas a pontinha de saudade faz com que ela volte àquele lugar que parece menos barulhento.
_OI!? – ela já atende gritando para que ele pudesse escutar.
Do outro lado, uma musiquinha conhecida e a voz feminina anunciavam: “Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após a identificação.” Tururu-rú! Ela desligou rapidamente e retornou a ligação para o garoto já sem o sorrisinho de antes.
_O quê foi?!
_Desculpa, meu crédito acabou. Onde você está? Quero te ver!
O sinal realmente era horrível, um passo para a esquerda e a ligação caiu novamente. Ela parou, pensou se valia a pena ligar pra ele. Preferiu voltar a dançar. Dançou com tanta vontade de esquecer os problemas que sua cabeça parecia ser um vácuo perfeito e seu coração, sem dar atenção ao que a atormentava, parecia vazio, uma simples bomba para a circulação sanguínea a fim de mantê-la ali, dançando.
As amigas já estavam achando as ligações insistentes estranhas e ela acabou contando o que estava acontecendo. Ao fim da história, e mais um drink, ela voltou a dançar, mas logo foi interrompida por outra ligação. Lá foi ela para o local exato onde o celular conseguia três pontos de sinal, deu end na chamada a cobrar e retornou. Assim que ele atendeu, ela começou a falar:
_Olha, eu tô numa festa com minhas amigas, já não sinto meus pés ou minhas pernas de tanto dançar... eu to bêbada e feliz!
_Não consigo te escutar direito. Pode me mandar uma mensagem avisando onde você está ou onde posso te encontrar?
_Não, não posso! – ela bebeu mais um gole do líquido divertido que estava no copo que segurava. – Meu copo é mais importante. Não dá pra escrever uma mensagem com ele na mão. Quer saber a verdade?! Pára de me ligar, não vou mais te atender, na verdade te retornar. Liga lá pra minha casa... Fala com a minha secretária eletrônica... – a garota não se preocupava se o carinha estava ou não entendendo o que ela falava - Você não quis me procurar ou marcar nada antes, não foi? Agora eu estou ocupada, muito ocupada. Nada do que você me falar vai me tirar daqui. Tô me divertindo como há muito tempo não fazia. – virou o celular para a direção de algumas caixas de som - Tá escutando? Amo essa música. Já te disse, tô MUITO ocupada, pára de me ligar!
Ela terminou a ligação e com alguma dificuldade conseguiu desligar o aparelho definitivamente. Voltou cambaleando para onde achava que suas amigas estavam cantarolando (e dançando conforme a coreografia) a música que tocava “... I'm kinda busy. K-kinda busy K-kinda busy...”.
Baseado em: Telephone, da cantora Lady Gaga (com Beyoncè). Composta por Lady Gaga e Rodney Jerkins. Faixa 6 do disco The Fame Monster, de 2009.
Ele chegou no pequeno apartamento para o qual se mudou há pouco mais de dois anos. Estranho, mas nada daquilo que ocupa o espaço mínimo o agradava. Parecia que os móveis não o pertenciam, que as cores não foram escolhidas por ele, que aquele lugar, enfim, não era dele.
Estava cansado depois de mais uma sexta-feira previsível. Saiu do trabalho depois de horas exaustivas, ligou para a namorada e, como há cinco anos, fizeram o mesmo programa. Comeram o lanche de sempre, no lugar de sempre, foram ao cinema de sempre, ver um filme com o enredo de sempre. Em geral eles também vão juntos para o apartamento dele e transam como sempre. Dessa vez ele pediu para ficar sozinho depois que entraram no carro.
Ele abriu a geladeira, olhou para a última cerveja que estava na porta, fechou novamente e pegou um copo mais baixo no escorredor. Foi até o armário embaixo da televisão, pegou a garrafa de Jack Daniel’s e jogou-se numa poltrona. Serviu-se de bebida até a metade do copo e tomou de uma vez. Olhou para frente com o olhar perdido, em sua mente um zumbido incomodava. Derramou mais destilado no copo, mas não bebeu como antes. Seus olhos continuavam vidrados no nada. Começou a pensar no rumo que sua vida estava tomando. Bebeu um gole grande do whisky e imaginou seu futuro. Não que isso lhe desse muito trabalho. Ele e sua atual namorada se encontrariam após o trabalho, iriam ao velho restaurante, depois veriam mais um filme idiota e voltariam pra casa. Enquanto ela toma banho, ele checa uma última vez o email com a televisão ligada, transmitindo um jornal qualquer. Ela sai do banho, coloca o pijama e eles trocam de lugar. Ele se banha enquanto ela olha os emails. Vão para a cama, cada um vira para um lado, dizem “boa noite” quase que automaticamente e adormecem.
Ele reabasteceu o copo. Há muito já percebia que não eram mais um casal como costumavam ser. Ainda se amavam muito, mas eram frios um com o outro, não era mais tão divertido assim. Nem pra ele, nem pra ela, sabia disso. Sentia que alguma coisa estava para mudar, sua vida era repleta de transformações inusitadas, ainda que ele sempre conseguisse pressentir quando um furacão estava para atingi-lo novamente. Ele se levantou de supetão, jogou o copo ainda cheio na parede que passou tanto tempo contemplando e começou a urrar coisas sem sentido.
Gritou palavras para alguém que não estava lá. Perguntava se esse alguém estava se divertindo com a situação dele. Correu até a cozinha e derrubou uma gaveta com violência. Procurou no chão algo que mais parecia uma faca de açougue e apontava para o nada de forma ameaçadora. Com uma risada típica do seu vilão favorito dos quadrinhos falava para seu alvo invisível não temer porque aquilo era algo passageiro. Lágrimas escorriam pelo rosto e encontravam o enorme sorriso em sua boca. “Não precisa fazer essa cara! Daqui a pouco tudo isso vai acabar!” e dava uma gargalhada ainda mais alta. Em mais um ataque de fúria ele enterrou a ponta da faca na mesa de madeira ao lado do fogão e andou desgovernadamente até o quarto em que dormia. Fora de si o homem berrou sem parar: “Você quer assistir à televisão?” e jogou o aparelho contra o armário. “Ou será que prefere ir dormir”, virou o colchão e tudo o mais que havia em cima dele.
Da mesma forma como tudo começou, ele parou respirando de forma ofegante. Sentou-se no chão, apoiou as costas no armário e reparou no estado que estava o cômodo. As lágrimas continuavam molhando seu rosto. Olhou pela janela e viu uma noite sem nuvens, mas também, curiosamente, sem estrelas. Sempre gostou de deitar no chão e olhar para o céu. Passava horas fazendo isso quando podia. Pensar na possibilidade de voar... Sumir da vida que tinha nos últimos meses... Sentia-se preso num caixão sem forças o suficiente para se libertar dele, sem nem ao menos poder tentar.
Se levantou, foi até o banheiro e jogou água fria no rosto tentando se recompor. Esperava que os vizinhos não tivessem se assustado, ou chamado a polícia. Não queria ter feito aquilo com o apartamento. Até porque quem teria que arrumar tudo era ele mesmo. Pelo menos estava mais leve. Sua cabeça já não estava parecendo uma bomba prestes a explodir. Conseguia pensar em alguma coisa pra fazer, ou em alguém com quem conversar. Podia olhar pra frente e ver que aquilo era só uma fase e que, no final, tudo daria certo. Pelo menos era com isso que ele sonhava todos os dias.
Baseado em: One of my turns, da banda Pink Floyd. Composta por Waters. Faixa 10 do disco The Wall, de1979.
Alguém completamente apaixonada por música, mas sem o mínimo jeito pra fazer música. Assim, optei por outro caminho, escrever sobre música. Além de escrever os textos desse blog, também sou redatora da seção MUzIC do site FUNtástico!, produtora da Rádio UFMG Educativa e estudante de Comunicação Social na UFMG.