29.8.10

Vivendo e aprendendo

Às vezes eu fico reparando nas pessoas à minha volta. Algumas delas me fazem felizes, algumas não fazem a menor diferença pra mim, outras me fazem pensar sobre um ponto em especial. Isso pode parecer discurso de quem não consegue o que quer, ou qualquer outra coisa do tipo, mas certa música do Pato Fu me faz pensar por um ângulo diferente.
Nunca fui muito boa em competições, até porque não gosto de competir. A não ser que seja por um ótimo motivo, e olhe lá. É... Talvez seja por isso que não ligo a mínima por competições esportivas, por exemplo. Enfim, por mais que esse espírito competitivo não me consuma, sei que ele também tem seu lado positivo. Como sugere a letra de “Perdendo os dentes”, da banda mineira já citada, aprende-se muito mais com as derrotas que temos ao longo da vida que com as vitórias. Se pensarmos apenas pelo lado da perda em si, é com elas que descobrimos como melhorar nossas estratégias. Mas são também elas que nos fazem dedicar mais aos nossos reais objetivos e, principalmente, nos ensinam a lidar com o insucesso.
Sinto por aqueles que desconhecem a derrota, para quem a vida parece sorrir o tempo todo. A passagem dessas pessoas pela Terra acaba sendo algo extremamente monótono. Sem grandes variações, tudo sai sempre como o planejado. Até onde eu saiba, viver pede mais por emoção e improviso que por planilhas rigorosamente seguidas. Os que se veem salvos de sofrer, não imaginam como perder faz alguém maior e dá mais força para tudo o que ainda está por vir.
Por falar em força, uma coisa curiosa que já reparei em supostos grandes vitoriosos é como eles parecem ser fortes para tudo. Por outro lado, fica claro como eles agem quando estão seguros dos olhares alheios. Eles também tem sentimentos e não, não são perfeitos em tudo. Incapacitados de admitir isso vivem escondendo suas fraquezas. Afinal são escravos da mesma vitória que parece trazer tantas glórias.
Apesar de não me importar muito com competições (e nem ser alguém que ganhe com freqüência), posso ver como um vencedor desmorona quando algo acontece fora do esperado, seja por falha sua ou alheia. A preocupação exagerada com o ganhar faz com que outras coisas da vida sejam deixadas de lado. Prefiro seguir assim. Levo as coisas como posso, sempre dando o melhor de mim, mas nunca deixo faltar amor nos meus objetivos. De que me adiantariam grandes metas sem amor por elas? Exatamente: nada. Prefiro ficar em paz comigo mesma, e feliz! Até porque, como já diria Raulzito, “É chato chegar a um objetivo num instante”, prefiro as surpresas, a expectativa e os imprevistos do caminho até chegar lá.

Baseado em: O Vencedor, da banda Los Hermanos. Composta por Marcelo Camelo. Faixa 2 do
disco Ventura, de 2003.
Escrito em: 26 de agosto de 2010.


Los Hermanos - O Vencedor from TvZERO on Vimeo.

15.8.10

Sonhos para a vida

Antes que qualquer coisa possa começar preciso te falar (ou avisar sobre) algumas coisas. Deixar claro que comigo nada é tão simples ou claro. Há muito tempo minha cabeça não funciona muito bem. Dizem por aí que eu sou louca. Até que, em certa medida, eu concordo com esse status. Ainda assim tento mudar isso. Sei que muitas vezes não parece, mas sim, eu tento. Não é exatamente fácil, muito menos como eu gostaria.

Pra começo de conversa eu não nasci numa família exemplar. Nunca vi meus pais juntos. Na verdade, conheço muito pouco deles. Um pouco mais da minha mãe, já que ainda era com ela que eu morava. Com ela e meus irmãos. Pensando bem, acho estranho quando vejo uma família completa. Pai, mãe, filhos e cachorro. Isso nunca fez parte da minha realidade. Não convivi com meu pai. Dia dos pais e Natal, de vez em quando o aniversário de um de nós, seus filhos, eram dias realmente especiais. Veríamos nosso pai, estaríamos com ele. As expectativas eram grandes, mas o encontro em si se resumia a vê-lo, abraçá-lo e ir fazer alguma coisa com os irmãos. Enfim, esse era um ponto importante que você deveria saber. Sim, gostaria de ter tido um pai comigo, mas não, essa não era a minha vida.

Tenho a impressão que se eu tivesse tido um pai teria tomado as decisões certas. Não que eu me arrependa de tudo que fiz ou que minha mãe não tenha tido influência sobre esses momentos. Mas que ela sempre estava ocupada e preocupada demais tentando dar o mínimo para os três filhos sem depender de ninguém. Sou a segunda da escadinha. Entre um irmão um ano e meio mais velho e uma irmã um ano e meio mais nova. Tire suas próprias conclusões sobre isso.

Às vezes assisto a algum capítulo de uma novela qualquer que está passando. Copacabana, Leblon, às vezes algum lugar em São Paulo... Isso quando não pego a trama no início que tem algum personagem na Holanda, Suécia, Espanha, França. Deve ser bom ter tudo aquilo. Queria que meus seus problemas fossem a dúvida se amanhã vai fazer sol e vou poder me divertir jogando frescobol na praia. Tem aquelas casas em lugares inabitados também. É só acordar, colocar o suco no copo da belíssima mesa de café da manhã (que é inteiramente desperdiçada), trocar duas palavras com quem estiver por ali (“Bom Dia”), pegar o protetor solar e ir de encontro ao mar. À noite, depois de tomar sorvete passeando pela avenida que margeia a praia, poderia ir à melhor pizzaria da região e beber um bom vinho tinto. E a melhor parte, em alguma dessas situações eu encontraria o amor da minha vida.

Depois de todas as dificuldades enfrentadas, eu e meu amado faríamos enormes fogueiras, reuniríamos nossos amigos e cantaríamos clássicos do “Música para Acampamentos” da Legião Urbana e algumas outras do Nando Reis. (Suspiro) Ia ser tão mais fácil se as coisas dessem um pouco menos errado.

Admito. Eu gostaria de ter um namorado, um amante. Não preciso de tudo que as novelas me fazem querer. Mas também queria ter um pai. Não consigo dizer que tenho um. Sou consideravelmente doida e às vezes acho que fui eu quem escolheu ser assim. Para mim, momentos de fúria são comuns não apenas certos dias do mês. Minha cabeça é algo insano que não consigo organizar. Muita gente já desistiu de mim por esses e outros motivos. Se você realmente está disposto a encarar todos esses “problemas” te digo que estou disposta a tentar. Tentar com toda a força que existe em mim. Com todo o meu coração. Tenho sede de vida e quero transformar a minha. Espero que amando você, eu consiga encontrar um ponto de onde começar. 

 

Baseado em: Lust for Life, da banda Girls. Composta por Christopher Owens. Faixa 1 do disco Album, de 2009.

 Pedido de Rebeca Penido.

 Escrito em: 13 de agosto de 2010.

 

1.8.10

Fora da área de cobertura

Os telefones que a cercavam faziam parecer que ela estava constantemente numa delegacia. Desta vez, o fixo tocou e a moça do telemarketing disparou:

_Boa TaRde, a senhora Giselle GeRms.. GeRmsno... Germsnotta está?

Ela morava sozinha e mais uma vez o telefone atrapalhava sua vida. Tentando se livrar logo da menina do outro lado ela respondeu:

_Olha, a dona Giselle foi trabalhar e só deve voltar bem tarde.

_Tem algum outro número que eu consiga falaR com ela? – insistia a vendedora de uma assinatura qualquer que não interessava.

_Não tem não. Sabe, ela é contra telefone.

_Ah sim, entendo. A editora X agradece sua atenção e deseja uma boa taRde. – tu, tu, tu...

A noite estava chegando e o telefone continuava a tocar:

_Oi mãe. Não, ainda não sei o quê eu vou fazer hoje. Pode deixar mãe, vou levar o juízo comigo. Mãe! Chega! Tchau. Tá, eu também te amo, posso ir agora? Tchau, beijo.

Pouco tempo depois foi a vez das amigas, o primeiro telefonema que ela recebeu com boa vontade naquele dia. Queriam tirá-la de casa, o que era uma boa ideia, já que assim seria mais fácil fugir dos problemas que a perseguiam há alguns meses. Elas contaram que haveria uma espécie de rave em um sítio em uma cidade próxima e que seria ótima.

Pensou duas vezes antes de aceitar o convite. Lembrou de um carinha ela gostava, mas a relação entre eles era um tanto estranha. Passava semanas ignorando a existência dela e, de repente, ressurgia. Ela não admitia, mas queria que ele ressurgisse essa noite. Recobrando a consciência e vendo que realmente precisava esquecer muita coisa, a moça concordou em ir e foi se arrumar.

Chegaram ao local e a festa realmente estava cheia e muito animada. Finalmente a noite prometia. O grupo de amigas foi direto para o bar e cada uma saiu de lá com uma bebida mais colorida que a outra. Apenas conversaram, beberam e observaram a multidão durante quase uma hora. Depois de alguns outros drinks, elas então foram dançar acompanhadas de seus copos. A cada música que tocava elas ficavam mais animadas e entravam mais no clima do lugar.

Como que para não deixá-la esquecer, o celular da garota Germsnotta voltou a tocar. Sem olhar no visor o nome que chamava, ela foi para um lugar que parecia tranquilo e “silencioso”.

_Alô? Alô?! ALÔ!!!

_Oi! Sou eu, onde você tá?

Era o carinha. Por um segundo ela ficou feliz e quis vê-lo novamente.

_Eu to num lugar que minhas amigas me trouxeram, não sei muito bem onde é. Oi?! Não tô te escutando. O sinal aqui é péssimo.

Ela tentou escutar uma resposta do outro lado da linha, mas não conseguiu. A ligação caiu. Sem muita opção, ou grande preocupação, ela voltou já dançando e sorrindo para suas amigas... e seu copo.

Alguns minutos depois, o celular chamou novamente. Está tocando uma música que ela gosta, mas a pontinha de saudade faz com que ela volte àquele lugar que parece menos barulhento.

_OI!? – ela já atende gritando para que ele pudesse escutar.

Do outro lado, uma musiquinha conhecida e a voz feminina anunciavam: “Chamada a cobrar. Para aceitá-la continue na linha após a identificação.” Tururu-rú! Ela desligou rapidamente e retornou a ligação para o garoto já sem o sorrisinho de antes.

_O quê foi?!

_Desculpa, meu crédito acabou. Onde você está? Quero te ver!

O sinal realmente era horrível, um passo para a esquerda e a ligação caiu novamente. Ela parou, pensou se valia a pena ligar pra ele. Preferiu voltar a dançar. Dançou com tanta vontade de esquecer os problemas que sua cabeça parecia ser um vácuo perfeito e seu coração, sem dar atenção ao que a atormentava, parecia vazio, uma simples bomba para a circulação sanguínea a fim de mantê-la ali, dançando.

As amigas já estavam achando as ligações insistentes estranhas e ela acabou contando o que estava acontecendo. Ao fim da história, e mais um drink, ela voltou a dançar, mas logo foi interrompida por outra ligação. Lá foi ela para o local exato onde o celular conseguia três pontos de sinal, deu end  na chamada a cobrar e retornou. Assim que ele atendeu, ela começou a falar:

_Olha, eu tô numa festa com minhas amigas, já não sinto meus pés ou minhas pernas de tanto dançar... eu to bêbada e feliz!

_Não consigo te escutar direito. Pode me mandar uma mensagem avisando onde você está ou onde posso te encontrar?

_Não, não posso! – ela bebeu mais um gole do líquido divertido que estava no copo que segurava. – Meu copo é mais importante. Não dá pra escrever uma mensagem com ele na mão. Quer saber a verdade?! Pára de me ligar, não vou mais te atender, na verdade te retornar. Liga lá pra minha casa... Fala com a minha secretária eletrônica... – a garota não se preocupava se o carinha estava ou não entendendo o que ela falava - Você não quis me procurar ou marcar nada antes, não foi? Agora eu estou ocupada, muito ocupada. Nada do que você me falar vai me tirar daqui. Tô me divertindo como há muito tempo não fazia. – virou o celular para a direção de algumas caixas de som - Tá escutando? Amo essa música. Já te disse, tô MUITO ocupada, pára de me ligar!

Ela terminou a ligação e com alguma dificuldade conseguiu desligar o aparelho definitivamente. Voltou cambaleando para onde achava que suas amigas estavam cantarolando (e dançando conforme a coreografia) a música que tocava “... I'm kinda busy. K-kinda busy K-kinda busy...”.

  

Baseado em: Telephone, da cantora Lady Gaga (com Beyoncè). Composta por Lady Gaga e Rodney Jerkins. Faixa 6 do disco The Fame Monster, de 2009.

 Escrito em: 28 de julho de 2010.

  Revisado por: Jú Afonso (http://eumundoafora.blogspot.com/)

 

19.7.10

Ensaio de uma reviravolta

Ele chegou no pequeno apartamento para o qual se mudou há pouco mais de dois anos. Estranho, mas nada daquilo que ocupa o espaço mínimo o agradava. Parecia que os móveis não o pertenciam, que as cores não foram escolhidas por ele, que aquele lugar, enfim, não era dele.

Estava cansado depois de mais uma sexta-feira previsível. Saiu do trabalho depois de horas exaustivas, ligou para a namorada e, como há cinco anos, fizeram o mesmo programa. Comeram o lanche de sempre, no lugar de sempre, foram ao cinema de sempre, ver um filme com o enredo de sempre. Em geral eles também vão juntos para o apartamento dele e transam como sempre. Dessa vez ele pediu para ficar sozinho depois que entraram no carro.

Ele abriu a geladeira, olhou para a última cerveja que estava na porta, fechou novamente e pegou um copo mais baixo no escorredor. Foi até o armário embaixo da televisão, pegou a garrafa de Jack Daniel’s e jogou-se numa poltrona. Serviu-se de bebida até a metade do copo e tomou de uma vez. Olhou para frente com o olhar perdido, em sua mente um zumbido incomodava. Derramou mais destilado no copo, mas não bebeu como antes. Seus olhos continuavam vidrados no nada. Começou a pensar no rumo que sua vida estava tomando. Bebeu um gole grande do whisky e imaginou seu futuro. Não que isso lhe desse muito trabalho. Ele e sua atual namorada se encontrariam após o trabalho, iriam ao velho restaurante, depois veriam mais um filme idiota e voltariam pra casa. Enquanto ela toma banho, ele checa uma última vez o email com a televisão ligada, transmitindo um jornal qualquer. Ela sai do banho, coloca o pijama e eles trocam de lugar. Ele se banha enquanto ela olha os emails. Vão para a cama, cada um vira para um lado, dizem “boa noite” quase que automaticamente e adormecem.

Ele reabasteceu o copo. Há muito já percebia que não eram mais um casal como costumavam ser. Ainda se amavam muito, mas eram frios um com o outro, não era mais tão divertido assim. Nem pra ele, nem pra ela, sabia disso. Sentia que alguma coisa estava para mudar, sua vida era repleta de transformações inusitadas, ainda que ele sempre conseguisse pressentir quando um furacão estava para atingi-lo novamente. Ele se levantou de supetão, jogou o copo ainda cheio na parede que passou tanto tempo contemplando e começou a urrar coisas sem sentido.

Gritou palavras para alguém que não estava lá. Perguntava se esse alguém estava se divertindo com a situação dele. Correu até a cozinha e derrubou uma gaveta com violência. Procurou no chão algo que mais parecia uma faca de açougue e apontava para o nada de forma ameaçadora. Com uma risada típica do seu vilão favorito dos quadrinhos falava para seu alvo invisível não temer porque aquilo era algo passageiro. Lágrimas escorriam pelo rosto e encontravam o enorme sorriso em sua boca. “Não precisa fazer essa cara! Daqui a pouco tudo isso vai acabar!” e dava uma gargalhada ainda mais alta. Em mais um ataque de fúria ele enterrou a ponta da faca na mesa de madeira ao lado do fogão e andou desgovernadamente até o quarto em que dormia. Fora de si o homem berrou sem parar: “Você quer assistir à televisão?” e jogou o aparelho contra o armário. “Ou será que prefere ir dormir”, virou o colchão e tudo o mais que havia em cima dele.

Da mesma forma como tudo começou, ele parou respirando de forma ofegante. Sentou-se no chão, apoiou as costas no armário e reparou no estado que estava o cômodo. As lágrimas continuavam molhando seu rosto. Olhou pela janela e viu uma noite sem nuvens, mas também, curiosamente, sem estrelas. Sempre gostou de deitar no chão e olhar para o céu. Passava horas fazendo isso quando podia. Pensar na possibilidade de voar... Sumir da vida que tinha nos últimos meses... Sentia-se preso num caixão sem forças o suficiente para se libertar dele, sem nem ao menos poder tentar.

Se levantou, foi até o banheiro e jogou água fria no rosto tentando se recompor. Esperava que os vizinhos não tivessem se assustado, ou chamado a polícia. Não queria ter feito aquilo com o apartamento. Até porque quem teria que arrumar tudo era ele mesmo. Pelo menos estava mais leve. Sua cabeça já não estava parecendo uma bomba prestes a explodir. Conseguia pensar em alguma coisa pra fazer, ou em alguém com quem conversar. Podia olhar pra frente e ver que aquilo era só uma fase e que, no final, tudo daria certo. Pelo menos era com isso que ele sonhava todos os dias. 


Baseado em: One of my turns, da banda Pink Floyd. Composta por Waters. Faixa 10 do disco The Wall, de1979.

Pedido de Rafael Mox 

 Escrito em: 15 de julho de 2010. 

 Revisado por: Jú Afonso (http://eumundoafora.blogspot.com/)

 


5.7.10

Delicadamente vingativa

Sempre achei que você já soubesse disso. Se era tão experiente como dizia - e falavam por aí – como pôde cometer um erro tão banal? A não ser que fosse por diversão, esporte, gosto pelo perigo... Mas acho que você não tem noção de que, comigo, o perigo era, não apenas maior, mas também mais real. Pelo que te conheço, posso ouvi-lo dizer “Eu rio na cara do perigo, Há-há-há...”. Patético você. Em toda a sua esperteza e coragem deveria lembrar que não sou exatamente como as mulheres “normais”. Não bato muito bem da cabeça... Não me lembro de ter te contado isso, mas sabia que uma vez um psicólogo me recomendou que tivesse uma consulta com um amigo dele, psiquiatra? Enfim, não vem ao caso, quem sabe um dia você não tem a chance de ouvir essa história mais detalhadamente.

Da primeira vez que você terminou comigo confesso que fiquei muito triste. Na verdade mais que isso. Passei no supermercado, comprei 5 potes de sorvete, aluguei pelo menos uns 10 filmes e fiquei dias sem sair de casa, não queria falar com ninguém. Nem as cortinas eu abria, muito menos as janelas. Quando eu acordava depois de dormir o dia todo sozinha, mal conseguia abrir os olhos de tão inchados que estavam. Acho que tinha motivo pra isso... Te peguei comendo a vizinha...

Depois de muita insistência – e quando eu não conseguia mais evitar as noitadas enchendo a cara -, meus amigos me tiraram de casa. A ideia inicial não foi minha, mas eles me convenceram a despertar a criatura vingativa que hibernava dentro de mim.

Hoje a situação mudou. Ainda me surpreendo com seus telefonemas a todo o tempo. Nem acredito quando ouço sua voz tentando se recuperar de muito choro, se lamentando... Não se preocupe, adoro esses telefonemas, não tem ideia do quanto me divertem. Impressão minha ou se arrependeu de alguma coisa? Continue assim, me deixa muito feliz. É verdade que por um instante tenho pena de você, mas logo volto a rir loucamente e sigo meu caminho.

Mal pude acreditar nas últimas ligações. Muito menos quando eu te encontrei dormindo na porta da minha casa. Agora você me pede pra voltar, diz que me ama, que não consegue viver sem mim e toda essa asneira. Sim, sem a menor vergonha ou piedade digo que você e nada são a mesma coisa pra mim. Você já não faz a MENOR diferença na minha vida. Quero mais que você vá para o inferno e leve consigo toda a sua futilidade e preponderância. Está solitário? Que coisa hein?! Foda-se! Pensa em suicídio? Faz um bem enorme pro mundo. Só te peço pra me avisar quando for se matar, não posso perder essa cena.

Todo esse seu discurso me faz rir mais e mais. Faz a minha vida muito mais feliz, sabe? Caminho sorridente pela rua. Reparou como o céu está mais azul nesses dias de outono? Um aviso: não se anime, isso é apenas o início. Não sabe como posso ser ainda mais... indelicada, digamos assim.


Baseado em: Smile, da cantora Lily Allen. Composta por Allen, Iyiola Babalola, Darren Lewis, Jackie Mittoo. Faixa 1 do disco Alright, Still, de 2006.

 Escrito em: 01 de julho de 2010.

 Revisado por: Jú Afonso (http://eumundoafora.blogspot.com/)

 


21.6.10

Fazendo um dia melhor

Sabe quando você está naquela fase meio que inferno astral? Nada dá certo, seus planos vão por água abaixo, você briga com sua família todo dia, mal tem tempo pra estar com quem gosta, o trabalho é um saco, nada presta na TV, no rádio ou na internet, cansou da vida que anda levando... Dizem que o inferno astral “de verdade” acontece no mês antes e no mês depois do seu aniversário (vai entender a lógica dos astrólogos...), mas na maior parte das vezes essas coisas acontecem quando você nem lembra que dia você nasceu, nem mesmo que você faz aniversário. Nessas situações, poucas coisas conseguem fazer seu dia melhor. Para nós mulheres uma coisa é quase infalível: chocolate. Mas bom mesmo são os amigos.

Você pode até pensar: não, prefiro estar com meus familiares. Não creio que isso seja tão certo. A chance de você discordar e brigar com algum parente (principalmente quando seu equilíbrio não está 100%) é maior que a de brigar com um amigo. Um raciocínio simples e clichê ajuda a lembrar que você nasceu nessa família por acaso, por isso pode não se dar tão bem com ele como você gostaria, já seus amigos... Vocês até podem ter se conhecido por acaso, (o que deve ser descartado em Belo Horizonte, onde só existem 3 pessoas), mas não foi por acaso que durante meses e anos vocês continuaram se vendo, saindo e se divertindo juntos. E a não ser que você esteja rodeado de pessoas do mais alto grau de falsidade (ou até mesmo seja uma delas), vocês curiosamente se chamam de amigos.

Em geral, apenas ter a oportunidade de estar com eles já muda seu humor. O dia pode estar todo errado. O céu tão cinza quanto o dos mais típicos dias londrinos. A pia da cozinha pode entupir e seu cachorro rasgar o sofá novo. Você simplesmente pensa porque saiu da cama naquela manhã. Receber o telefonema de um amigo muda as coisas. Por alguns minutos que seja você esquece aquele monte de coisas dando errado, além das tarefas atrasadas em todos os níveis possíveis.

A segunda-feira chega e você está enterrado no seu quarto depois de uma noite agitada na qual as únicas coisas que aconteceram foram você ter arrumado mais contas pra pagar e uma bela dor de cabeça de tanto ter bebido. Amigos pressentem situações assim e quando você menos espera um deles já está na portaria do seu prédio pra te fazer companhia. Ou, ainda que ninguém tenha aparecido, observar a foto deles pendurada na parede já te deixa mais animado.

É uma quarta-feira e você não acredita que a semana ainda está no meio. Por algum motivo está extremamente cansado e não suporta a ideia de ter que ir trabalhar. Enrola um pouco mais do que deveria na cama, desejando ter simplesmente perdido a hora. O chá de toda manhã já está esfriando, mas você não encontra ânimo nem mesmo para bebê-lo. Olha o relógio em cima da porta e respira profundamente ao pensar que perdeu o ônibus. É, o dia tem grandes chances de ser um inferno. Finalmente chega ao trabalho e obrigações e prazos começam a ser estipulados. Tem vontade de jogar as pilhas de papel pela janela, mas lembra que trabalha em um lugar sem janelas, apenas ar condicionado, o que só piora seu dia, já que não levou nenhuma blusa para se proteger da temperatura constante de 16ºC. Depois de vários colegas comentarem que deveria ir pra casa, pois está muito cansado para render como deveria, você sai do trabalho e não acredita na chuva que está caindo. Claro, o guarda-chuva está em casa. Tem uma sensação estranha de estar esquecendo mais alguma coisa.

Molhando todo o hall de entrada e as escadas, finalmente está na porta de casa. Huuuum... Que cheiro bom! Deve ter festa no vizinho hoje. Enquanto isso você vai ficar assistindo jornal e seriados na televisão, até porque está muito cansado pra pensar em qualquer outra possibilidade. Abre a porta. Várias vozes conhecidas gritam, cantam parabéns, alguém chega com uma toalha e você é abraçado pela sua namorada. Sim! Esqueceu seu aniversário, mas seus amigos não. Estão todos lá, todos que você verdadeiramente chama de amigo. Seus irmãos também te abraçam e, por último, seus pais aparecem. No meio da confusão alguém grita: “Discurso!” e é acompanhado por todo o resto. Pensa, pensa, mas uma única coisa insiste na sua cabeça. “Hoje meu dia foi péssimo. Acordei cansado, perdi meu ônibus, o trabalho estava... acho que não preciso comentar, peguei chuva, esqueci meu próprio aniversário. Só queria agradecer a vocês por fazerem parte da minha vida e fazer dela algo muito bom sempre! Muito obrigado!”. Entre um salgadinho e um copo de refrigerante (preferiu não abusar) observa as pessoas em sua casa e conclui que sim, apenas a presença deles já faz de qualquer dia o melhor de sua vida.


Baseado em: Thank You, da cantora Dido. Compositor não encontrado. Faixa 6 do disco No Angel, de 1999.

Escrito em: 17 de junho de 2010.

Revisado por: Jú Afonso (http://eumundoafora.blogspot.com/)


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Dido - Thank You from Esteban Guerrero on Vimeo.

6.6.10

Bonzinho só se fode

Era uma vez uma garota conhecida por arrasar corações por onde passava. Usava e abusava de quem cruzasse seu caminho e se divertia sendo má assim. Até o dia em que se envolveu com um homem diferente que disse (e fez) abertamente tudo o que ela mais temia.

A estratégia dela, nada muito complexo, era fazer-se de apaixonada nos casos mais interessantes, usar todo um jogo de caras e bocas, palavras milimetricamente escolhidas, modelitos muito bem calculados, além da pose exigida pela situação. Construía e usava a personagem perfeita até que enjoasse da vítima em questão, o que, claro, só acontecia depois de ver o alvo aos seus pés, ao ponto de ouvi-lo dizer que ela era a mulher perfeita e tudo mais a que tinha direito.

O carinha especial apareceu na vida dela por meio da irmã. Aquele foi um caso rápido, sem qualquer sucesso ou importância para nenhum dos dois, que havia acontecido alguns anos antes. Para ele os genes daquela família eram os culpados pelo comportamento das irmãs. Elas compartilhavam o hábito de fazer crescer a libido masculina, cultivá-la e jogá-la para bem longe no momento que lhes parecia mais oportuno. Seria algum tipo de distúrbio psicológico?

Nossa protagonista chegou a se apaixonar por ele, mas não conseguia abrir mão de sua fama de má que tanto alimentava seu ego. Por outro lado, era incapaz também de controlar o envolvimento que aumentava a cada encontro, mas achou uma saída para sua “maldade” constante. No ápice de toda paixão que existia dentro dela, da sua boca, propositalmente, saía o nome errado. Justo quando ele estava querendo acreditar que ela o amava (ou sentia alguma coisa, pelo menos). Que finalmente o cupido havia mirado nela. Mas parecia que ainda não era esse o momento.

Quando ela confirmou que estavam juntos, foi uma nova esperança para ele. Novamente desiludido ao conversar um pouco com os amigos próximos da garota, percebeu que as coisas não eram bem como ele imaginava, teria que mudar seus planos. A relação quase que descompromissada era ótima para o casal. Alguns chamavam de “sexo casual”, que os satisfazia muito bem e mantinha os programas periódicos. Ainda assim, ela não perdia sua pose de má e fazia questão de dizer para quem quisesse ouvir que ele não passava de um mero aprendiz.

Aquela situação só aguçava os interesses do homem que insistia em entender o que realmente se passava na cabeça daquela com quem estava se envolvendo. A história que viviam permitia algumas regalias que em geral não aconteciam entre os casais mais casuais. Sempre que encontrava a chance ele questionava à garota o que ela queria de verdade. Completava afirmando que ela estava à procura de um homem rico e nada mais, mas que a busca estava difícil naqueles tempos. Nenhum novo rico circulava solteiro por mais que algumas semanas. Ele avisava que o transe hipnótico no qual ela vivia estava para acabar e que logo estaria presa a uma coleira muito bem apertada.

A previsão se fez realidade e o cara que até o momento parecia ser apenas uma pessoa boa mostrou que também podia ser mal e que era ainda melhor assim. E não por simples diversão. Utilizando de estratégias bem conhecidas pela garota, e outras tantas exclusivas do universo masculino, ele inverteu o jogo. Não deixou que ela falasse uma palavra sequer, apenas fez com que ela admitisse que gostava do jeito dele de fazer as coisas. Naquele momento era ela quem não conseguia mais esquecer ou esnobar o carinha. Não adiantavam telefonemas supostamente sem importância ou qualquer outro recurso que ela tentasse. Estava sujeita às próprias maldades. Não era mais ela quem estava no controle. Qualquer tipo de “por favor querido” era ignorado por ele, reação que tinha o poder de alimentar a ânsia da garota em vê-lo e tê-lo de novo, de novo e de novo. A esnobada da vez era ela.

Finalmente ela admite estar apaixonada e abobalhada, não consegue mais fingir tão bem. Agora tem quem dê a ela tudo o que precisa, na intensidade certa. Formaram o par perfeito. Durões um com o outro, eram capazes de fazer quarto, cozinha, sala, banheiros e afins ferverem como poucos casais.


Baseado em: Falling In Love (Is Hard On The Knees), da banda Aerosmith, letra de S. Tyler/ J. Perry/ G. Ballard. Faixa 2 do disco Nine Lives, de 1998. 

Escrito em: 02 de junho de 2010. 

Revisado por: Jú Afonso (http://eumundoafora.blogspot.com/)

 

Vídeo 1:

 

Vídeo 2:

Um pouco mais pra esquerda era onde eu estava! ^^